ADMINISTRAÇÃO
FINANCEIRA
Um administrador financeiro tem a função de:
• Definir finanças e suas principais áreas — serviços
financeiros e administração financeira.
• Comparar os objetivos de maximização dos lucros, da riqueza
dos proprietários e a preservação da riqueza dos stakeholders.
• Discutir o problema de
agency e o papel da ética.
• Descrever as funções da
administração financeira.
• Diferenciar a administração
financeira das disciplinas que estão relacionadas a ela: economia,
contabilidade, estatística.
• Descrever as decisões
financeiras.
O campo de finanças tem se ajustado
às dramáticas mudanças dos últimos anos. O conhecimento de finanças tornou-se
essencial para as pessoas engajadas na prática de conduzir os negócios.
Sendo assim, de acordo com
Gropelli e Nikbakht (1998), Finanças "é a aplicação de uma série de princípios
econômicos para maximizar a riqueza ou valor total de um negócio".
Antes de 1970, a ênfase desse
tema caía sobre as novas formas de melhoria efetiva na administração do capital
de giro, incrementando métodos para a manutenção de registros financeiros e
para a interpretação dos demonstrativos financeiros. Atualmente, a ênfase é
sobre as formas de orçamentar os recursos escassos, efetivamente, e investir os
fundos em ativos ou projetos que rendam a melhor compensação entre risco e
retorno.
De acordo com Gitman (1997), Finanças
podem ser definidas como "a arte e a ciência de administrar fundos.
Praticamente, todos os indivíduos e organizações obtêm receitas ou levantam
fundos, gastam ou investem. Finança ocupa-se do processo, instituições,
mercados e instrumentos envolvidos na transferência de fundos entre pessoas,
empresas e governos".
Assim, a análise financeira
fornece os meios para tornar flexíveis e corretas as decisões de investimento,
no momento apropriado e mais vantajoso.
Para Gitman (1997), as principais
áreas de finanças podem ser divididas em duas amplas partes de acordo com as
oportunidades de carreira: Serviços Financeiros e Administração Financeira.
Serviços Financeiros é a área
das finanças voltada à concepção e à prestação de assessoria, tanto quanto à
entrega de produtos financeiros a indivíduos, empresas e governo.
Administração Financeira diz
respeito às responsabilidades do administrador financeiro numa empresa. Os
administradores financeiros administram, ativamente, as finanças do todos os
tipos de empresas, financeiras ou não, privadas ou públicas, grandes ou
pequenas, com ou sem fins lucrativos. Eles desempenham uma variedade de
tarefas, tais como: a) orçamentos; b)previsões financeiras; c)administração do
caixa; d)administração do crédito; e)análise de investimentos; f)captação de
fundos. Segundo Gropelli e Nikbakht (1998), para serem bem sucedidos, os
administradores financeiros têm que se envolver com as mudanças que ocorrem,
constantemente, no campo das finanças, ou seja, são responsáveis pelo
reconhecimento e respostas aos fatores de mudanças em todos os ambientes, sejam
eles privados, públicos ou financeiros.
Nesse ponto, vale ressaltar que
a Administração Financeira é uma atividade orientada por objetivos. As ações do
administrador financeiro relativas à análise e ao planejamento financeiro, às
decisões de investimento e às decisões de financiamentos devem ser tomadas
visando-se ao cumprimento dos objetivos dos proprietários da empresa, seus
acionistas. Logo, antes de tudo, deve-se entender qual é o objetivo da
administração financeira, o qual irá gerar uma base concreta para a tomada e a
avaliação de decisões financeiras:
De acordo com Gitman (1997),
algumas pessoas acreditam que o objetivo dos proprietários é sempre a maximização
do lucro. Para atingir o objetivo de maximização do lucro, o administrador
financeiro toma, apenas, aquelas providências que, dará maior contribuição para
a lucratividade da empresa. Assim, dentre as alternativas consideradas, o
administrador financeiro escolherá aquela que resultar no maior retorno
monetário possível. Porém, a maximização do lucro é falha por várias razões: a
data da ocorrência dos retornos, o fluxo de caixa disponível aos acionistas (as
receitas da empresa não representam fluxo de caixa disponível aos acionistas) e
o risco (a maximização do lucro desconsidera não apenas o fluxo de caixa, mas
também o risco, ou seja, a possibilidade de que os resultados realizados possam
ser diferentes daqueles esperados).
Ross; Westerfield e Jordan
(1998) concordam com o exposto acima, quando afirmam que "a maximização de
lucro talvez seja o objetivo empresarial mais freqüentemente citado, mas não é
um objetivo muito preciso", uma vez que providências tais como o adiamento
de gastos de manutenção, a não- reposição de estoques e outras medidas de curto
prazo, tendentes a reduzir custos, provocarão aumento do lucro, não são,
necessariamente, desejáveis. Portanto, tal objetivo não nos diz qual é o
equilíbrio apropriado entre lucro corrente e lucro futuro.
• Maximização da riqueza do
acionista
O administrador financeiro de
uma sociedade por ações toma decisões em nome dos acionistas da empresa,
atuando de acordo com os melhores interesses dos mesmos, ao tomar decisões que
aumentam o valor da ação. Logo, de acordo com ROSS & Westerfield e Jordan (1998),
"o objetivo da administração financeira, numa sociedade por ações, é
maximizar o valor corrente de cada ação existente".
• Preservando a riqueza dos
stakeholders
De acordo com Gitman (1997),
embora a riqueza do acionista seja o objetivo principal, muitas empresas têm
ampliado seu foco para incluir os interesses dos stakeholders1, tanto quanto os
dos acionistas. Uma atenção a eles evitará, conscientemente, medidas que possam
ser prejudiciais, ou seja, afetar sua riqueza, transferindo-a à empresa. Portanto,
o objetivo é preservar a posição dos stakeholders. Esse relacionamento positivo
pode ser considerado como parte da responsabilidade social da empresa,
proporcionando benefícios máximos aos acionistas, uma vez que deverão minimizar
a rotatividade, os conflitos e os litígios com os stakeholders.
• Problema de agency e controle
da sociedade por ações
O controle das modernas
sociedades anônimas é, geralmente, colocado nas mãos de administradores não
proprietários. Tais administradores podem ser vistos como agents dos
proprietários, que os contrataram e lhes delegaram poderes para tomar decisões
e administrar a empresa em benefício deles, proprietários (GITMAN, 1997).
Porém, em tais relações, existe possibilidade de conflito de interesses entre o
principal e o agente. Tal conflito é denominado problema de agency (ROSS;
WESTERFIELD e JORDAN, 1998). Isso quer dizer que, teoricamente, a maioria dos
administradores financeiros concorda com o objetivo de maximização da riqueza
do proprietário. No entanto, na prática, os administradores também estão
preocupados com sua riqueza pessoal, sua segurança no emprego, estilo de vida e
outras vantagens. Tais preocupações podem tornar os administradores relutantes
ou sem disposição para correr riscos elevados, se perceberem que um risco
elevado poderá resultar na perda do emprego e em prejuízo à riqueza pessoal.
Essa postura de moderação leva a retornos inferiores e à perda potencial de
riqueza para os proprietários e, conseqüentemente, ao problema de agency. Nesse
contexto, de acordo com Gitman (1997), dois fatores contribuem para evitar ou
minimizar tal problema:
1Stakeholders: grupos tais como
empregados, clientes, fornecedores, credores e outros que possuem um vínculo
econômico direto com a empresa (GITMAN, 1997).
• Forças de Mercado
Para assegurar a competência da
administração e minimizar os potenciais problemas de representação, os
acionistas têm usado seus votos para demitir administradores de baixo
desempenho e substituí-los por outros mais capazes. Outra força de mercado, que
tem compelido a administração a desempenhar no melhor interesse dos acionistas,
é a possibilidade de aquisição hostil2.
• Custos de Agency
Custos incorridos pelos
acionistas, para evitar ou minimizar problemas de agency e contribuir para a
maximização da riqueza dos proprietários. Incluem o monitoramento, despesas
vinculadas, custos de oportunidade e despesas de estruturação.
Um outro aspecto a ser
abordado, no que diz respeito à administração financeira, é o papel da ética.
Segundo Gropelli e Nikbakht (1998), observa-se que a administração financeira é
uma área desafiadora e compensadora, sendo estimulante pelo fato de aos
administradores financeiros ser atribuída a responsabilidade de planejar o
crescimento e a direção futuros de uma empresa — o que pode afetar,
grandemente, a sociedade na qual ela está inserida. Logo, as obrigações perante
a sociedade podem interferir nos lucros das empresas. As considerações sobre os
aspectos sociais, morais, ambientais e éticos fazem parte do processo de decisão
de investimento e não podem ser ignoradas pelos planejadores financeiros.
Os administradores, dentro
desse ambiente, assumem certas obrigações pelo fato de ficarem incumbidos de
gerir a empresa. Eles devem ter um senso claro de ética — padrões de conduta ou
de juízo moral — e devem evitar compensações ou outras formas de tirar proveito
pessoal. Para Gitman (1997), "o objetivo dos padrões é motivar empresas e
participantes de mercado a aderir tanto à prescrição quanto ao espírito das
leis e às regulamentações concernentes a todos os aspectos da prática
empresarial e profissional".
Os administradores não devem se
comprometer com práticas que possam denegrir a imagem da empresa, mas devem
participar, tanto quanto
2Aquisição hostil: aquisição de
uma empresa (o alvo) por outra empresa (a adquirente) que não é apoiada pela
administração (GITMAN,1997).
possível, de atividades sociais
para demonstrarem que eles estão cientes da importância da comunidade e
daqueles que adquirem seus produtos ou serviços. Os administradores financeiros
devem, também, assegurar que todos os padrões ambientais e legais sejam
respeitados, a fim de que a saúde e a segurança da comunidade e dos
trabalhadores sejam alcançadas.
De acordo com Gropelli e
Nikbakht (1998), se os administradores financeiros trabalhassem num vazio e
somente considerassem os ganhos monetários, eles acabariam por negligenciar
outros aspectos igualmente importantes e necessários para manter a opinião
pública bem favorável a respeito de suas empresas. Por meio da alocação de
recursos em benfeitorias sociais para trabalhadores e comunidade, os
administradores atrairão clientes e um acompanhamento mais estável por parte
dos acionistas.
Ainda de acordo com o autor,
salienta-se que "os administradores financeiros devem reconciliar as
necessidades sociais e ambientais com o objetivo de obtenção de lucro. O apoio
aos valores sociais pode não produzir o uso mais eficiente dos ativos ou os
mais baixos custos, porém irá melhorar a imagem da empresa. Cuidando dos
interesses das minorias, instituindo facilidades para treinamento,
providenciando a segurança e o bem-estar dos trabalhadores e lidando,
efetivamente, com a questão da convivência entre homens e mulheres, a empresa
pode produzir benefícios a longo prazo na forma de maior produtividade e
relações mais harmoniosas entre trabalho e administração".
De acordo com Gitman (1997), a
maioria das decisões empresariais são medidas em termos financeiros, logo, o
administrador financeiro desempenha um papel crucial na operação da empresa. As
pessoas de todas as áreas de responsabilidade da empresa necessitam interagir
com o pessoal de finanças para realizar seu trabalho.
Conseqüentemente, o pessoal de
finanças, para fazer previsões úteis e tomar decisões, precisa ter a disposição
e a capacidade de conversar com todos, dentro da empresa. Logo, para
compreender a função da administração financeira, é importante focalizar seu
papel na organização, seu relacionamento com a economia e a contabilidade, bem
como as atividades-chaves do administrador financeiro.
A dimensão e a importância da
função da administração financeira dependem do tamanho da empresa. Em pequenas
empresas, a função financeira é geralmente exercida pelo departamento de
contabilidade. À medida que a empresa cresce, a importância da função
financeira conduz, em geral, à criação de um departamento próprio. Se as vendas
ou compras internacionais são importantes para a empresa, ela poderá contar com
um ou mais profissionais de finanças incumbidos de monitorar e administrar sua
exposição a perdas decorrentes de flutuações de câmbio.
Já que a maioria das empresas
opera dentro da Economia, o administrador financeiro deve compreender o
arcabouço econômico e estar atento às conseqüências dos vários níveis de
atividade econômica e das mudanças na política econômica. O princípio econômico
básico usado em administração financeira, de acordo com Gitman (1997), é a
análise marginal — princípio segundo o qual devem ser tomadas decisões
financeiras e realizadas ações, somente quando os benefícios adicionais
superarem os custos adicionais. Quase todas as decisões financeiras implicam a
avaliação dos benefícios marginais versus os custos marginais, daí a
importância de um conhecimento básico da Economia. Segundo Gropelli e Nikbakht
(1998), os administradores financeiros são responsáveis por encontrarem as
melhores e as mais baratas fontes de fundos e para investi-los na melhor e mais
eficiente combinação de ativos, tentando encontrar, com isso, a combinação de
recursos disponíveis que obterá o mais alto retorno ao maior risco.
Gropelli e Nikbakht (1998)
afirmam que, quando da tomada de decisões de investimentos, os administradores
financeiros consideram os efeitos de alterações nas condições de demanda,
ofertas e preços sobre o desempenho da empresa. O entendimento da natureza
desses fatores ajuda os administradores a tomarem as decisões operacionais mais
vantajosas. Outrossim, os administradores podem determinar o momento propício
de emitirem ações, obrigações ou outros instrumentos financeiros. Ainda segundo
os autores, o conhecimento dos princípios econômicos pode ser útil na geração
de vendas as mais elevadas possíveis. Entender e responder, adequadamente, às
mudanças na demanda permite aos administradores financeiros que tirem todas as
vantagens das condições do mercado. Os melhores administradores, para obterem
isso, desenvolvem e adotam técnicas estatísticas confiáveis e executáveis que
prevejam a demanda e apontem quando as mudanças de direção nas vendas devem ser
feitas. Porém, os fatores econômicos não podem ser previstos com precisão e
muitas projeções estão sujeitas a grandes erros. Todavia, os bons
administradores financeiros sabem quando aumentar ou diminuir os preços.
• Fatores macroeconômicos
De acordo com Gropelli e
Nikbakht (1998), as decisões pessoais são influenciadas pelas mudanças nas
condições econômicas. As reações às mudanças das forças (macro) econômicas
externas, tais como o aumento ou declínio da atividade comercial e alteração na
legislação tributária, influenciam as decisões tomadas por uma empresa. Logo,
convém aos administradores engajarem-se no planejamento financeiro, pois,
assim, eles estarão preparados, com diferentes alternativas, sob diferentes
condições econômicas.
• Decisões econômicas sazonais
Tomar decisões no momento
adequado, em função das mudanças dos fatores microeconômicos, mantém
equilibrado o valor da empresa. Os administradores bem informados possuem
discernimento para obter vantagens das oportunidades rentáveis em níveis de
risco razoáveis, quando estão em expansão as atividades empresariais. Portanto,
para os administradores financeiros, é importante não somente prever, de forma
acurada, os níveis de negócios e atividades relacionadas, mas também fazer
julgamentos abalizados a respeito das mudanças esperadas em função dos fatores
macro e microeconômicos relacionados (GROPELLI e NIKBAKHT,1998).
A administração financeira e a
contabilidade nem sempre se distinguem facilmente. Em pequenas empresas, o
controller, freqüentemente, assume a função financeira; em grandes empresas,
muitos contadores estão intimamente envolvidos em várias atividades
financeiras. No entanto, há duas diferenças básicas entre Finanças e
Contabilidade: a ênfase no fluxo de caixa e na tomada de decisão.
O contador prepara as
demonstrações financeiras, que reconhecem as receitas no momento da venda e as
despesas, quando incorridas, ou seja, adota o regime de competência. Já o
administrador financeiro enfatiza o fluxo de caixa, ou seja, entradas e saídas
de caixa. Ele mantém a solvência da empresa, analisando e planejando o fluxo de
caixa para satisfazer as obrigações e adquirir os ativos necessários ao
cumprimento dos objetivos da empresa. O administrador financeiro adota o regime
de caixa para reconhecer as receitas e despesas que efetivamente representam
entradas e saídas de caixa, devendo enxergar além das demonstrações
financeiras, para poder detectar os problemas atuais ou os potenciais, sendo
capaz de evitar a insolvência e atingir os objetivos financeiros da empresa.
Enquanto o contador volta sua
atenção para a coleta e apresentação dos dados financeiros, o administrador
financeiro analisa os demonstrativos contábeis, desenvolve dados adicionais e
toma decisões, com base em suas avaliações acerca dos riscos e retornos inerentes.
Para Gropelli e Nikbakht (1998), "os administradores financeiros contam
com os contadores para prepararem os demonstrativos financeiros que fornecem
informações sobre a lucratividade — demonstrativo de resultado do exercício — e
sobre a posição financeira da empresa — balanço patrimonial". Os
demonstrativos financeiros auxiliam os administradores a tomarem decisões de
negócios envolvendo o melhor uso do caixa, a realização de operações
eficientes, a alocação ótima de fundos entre os ativos e o efetivo
financiamento de operações e de investimentos. A interpretação dos
demonstrativos financeiros é realizada, parcialmente, usando-se índices
financeiros, relatórios gerenciais, demonstrativo de origens e aplicações de
recursos e orçamentos de caixa.
• O Significado da Estatística
A análise estatística fornece a
base para a previsão e para comparar a saúde financeira e a lucratividade de
uma empresa com as de outras empresas. Logo, de acordo com Gropelli e Nikbakht
(1998), as empresas usam a estatística para detectar para quando é esperada a
mudança nas atividades econômicas e, conseqüentemente, quando é melhor aplicar
ou captar recursos, refinanciar uma dívida ou aumentar o capital de giro e
expandir a capacidade. Com a estatística, uma empresa pode calcular o padrão
sazonal de vendas, usando a informação para orçar, efetivamente, as
necessidades provisórias anuais de caixa, a data de compra de matérias-primas e
aumentar — ou reduzir — estoques. O autor salienta, ainda, que os
administradores devem aprender a lidar com as técnicas estatísticas para
estabelecer o prazo e prever, tão exato quanto possível, as mudanças nos
fatores micro e macroeconômicos básicos. Eles devem fazer bom uso dos
contadores que preparam os demonstrativos financeiros, ajudando, assim, os
administradores a monitorar o desenvolvimento da empresa. Em outras palavras,
os melhores administradores sabem como usar todas as ferramentas disponíveis e
como combinar todas as fontes de informações para realizarem os objetivos e as
estratégias de investimentos mais eficazes para a empresa.